Ciências Vocais

Certo dia alguém me perguntou sobre esse tal negócio de ciência vocal pra lá e pra cá, sobre quem são/seriam esses tais cientistas vocais e por aí vai! E ao meu ver, a pergunta é muita justa, uma vez que estamos diante de um fenômeno (a voz) que, historicamente, esteve sempre relacionado de alguma maneira à subjetividade e suas inúmeras armadilhas. Não obstante, no “mundo” da chamada voz profissional (sobretudo no que tange à voz artística), a maior parte das pessoas (leigas e por vezes não tão leigas assim) associa o “fazer científico em voz” diretamente às disciplinas de tradição mais clínica, como a fonoaudiologia e a otorrinolaringologia. Então, aproveitarei o ensejo para uma breve reflexão aqui com vocês.

Ocorre que aquilo que chamamos de “ciência vocal” se constitui de um conjunto relativamente amplo de disciplinas, de diferentes áreas de atuação profissional e produção de conhecimento (o Dr. Ingo Titze propôs o termo Vocologia para unificar estes esforços, mas ainda não é unanimidade entre os estudiosos do assunto mundo à fora). E dentre estas disciplinas, temos as que sequer são consideradas “cientificas em si”, como é o caso da Música, por exemplo.

Daí que é fundamental separar bem o “joio do trigo”: não se deve confundir método científico e metodologia científica. De modo bem simples, temos que em toda e qualquer disciplina (mesmo as consideradas “não científicas em si”), uma vez que seja parte de uma instituição acadêmica (e que esta, por sua vez, esteja obrigada à “prestação de contas” aos órgãos governamentais de controle, como o MEC, no Brasil), como finalização do processo de graduação (e mesmo de pós-graduação), produz-se um trabalho de conclusão de curso (o famoso TCC), cuja feitura é balizada por regras básicas de organização do pensamento e da escrita acadêmicos. Tais regras são o que chamamos, à grosso modo, de “metodologia científica”. Mas aqui é necessário registrar que um trabalho acadêmico cuja feitura tenha sido balizada pela “metodologia científica”, não é em si necessariamente uma pesquisa científica, na acepção do termo (e não é à toa que essa fase de estudos recebe o nome de “iniciação científica”). Não obstante, embora uma parte muito significativa das pesquisas científicas em si (via de regra nos programas de doutorado e mais ainda nos de pós-doutorado) sejam realizadas por pesquisadores vinculados à universidades (isto é, estes estudam fenômenos se valendo do método científico e organizam a sua produção acadêmica de acordo com a “metodologia científica” adotada pela instituição em questão), temos muitos pesquisadores científicos fora das universidades, atuando junto à indústria, aos governos e à iniciativa privada (institutos, fundações, etc.).

E aqui cabe ainda uma outra consideração no mínimo interessante e diz respeito ao próprio método científico: historicamente, o cientista (de qualquer área do conhecimento) possui toda liberdade de lidar com o método científico da forma que lhe convier, fazendo todas as adaptações necessárias para que o seu objeto de pesquisa seja estudado da maneira mais adequada e efetiva possível. E, com efeito, muitos estudiosos conduziram o método científico de formas diferentes ao longo da história da ciência, fato esse que nunca prejudicou a formulação das teorias e leis que conhecemos ou até mesmo a forma de encarar o método científico. Isaac Newton, Charles Darwin, René Descartes, Francis Bacon, David Hume e Karl Popper são bons exemplos desse modus operandis, apenas para citar alguns.

E para finalizarmos então essa reflexão, cabe registrar que ao final das contas, o cientista vocal é todo aquele que se debruça sobre os fenômenos vocais exclusivamente à luz do método científico (com as suas inúmeras possibilidades metodológicas de verificação dos fenômenos), esteja ele vinculado ou não à uma universidade (mas que tenha uma formação científica, obviamente); e que o seu objetivo maior seja a ampliação ou o refinamento da compreensão que temos acerca destes tais fenômenos vocais.

Ou seja, aquele profissional que apenas insiste em “ficar chovendo no molhado”, buscando para tanto “justificações acadêmicas” para “revestir de cientificidade” o seu discurso; ou que sai por aí difundindo e defendendo não mais que um “museu de grandes novidades” (como diria Cazuza)… o que equivale a dizer que seu modus operandis segue à risca a lógica do “reinventar a roda”; pois bem, este profissional não se enquadra naquilo que chamamos de cientista vocal! No máximo, se enquadraria no papel de um “divulgador” dos conhecimentos construídos pelas ciências vocais (respingando na pedagogia vocal) … e não há nenhum demérito nisso.

Ao meu ver, é importante termos isso bem claro, pois, com efeito, temos no atual “mercado da voz” muitos profissionais que ao fundo têm em mente tão somente “parecer geniais” aos olhos dos desavisados (que cá entre nós, são muitos) e com isso lograr algum tipo de “garantia” do seu ganha pão (e o que é ainda pior, quem sabe alguns adeptos para massagear o seu ego).

Fiquemos atentos!

Cordialmente,

Prof. Ariel Coelho.

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P.S.: Certamente, resta ainda por resolver a questão da educação/formação científica em si do profissional em questão (do tal cientista da voz). Ou seja, um professor de canto, por exemplo, que não tenha passado por um processo de educação científica na sua formação de base (via de regra, presente nas universidades em cursos ligados às ciências de modo geral, ou em instituições privadas como centros de pesquisa ou institutos específicos), ele simplesmente não reúne as condições técnicas necessárias para a realização de pesquisas científicas em voz. Para tanto, ele precisará complementar a sua formação nessa direção (o professor que é formado em música, por exemplo), caso deseje adentrar no mundo da pesquisa vocal em si (da pesquisa científica, que fique claro). Do contrário, seguirá sendo, no máximo, um educador vocal muito estudioso e não há problema algum nisso. E aqui cabe reiterar que é isso mesmo que desejamos de um grande professor de canto: que ela seja, sobretudo, um educador vocal que não pára nunca de estudar e de se atualizar na sua área, que é a pedagogia vocal; e que, preferencialmente, a sua pedagogia vocal esteja sempre embasada no conjunto dos conhecimentos produzidos no seio das ciências da voz (mas consciente de que isso, por si só, não o torna um cientista vocal).